Meu desastroso exame prático de conduçao

Detalhe da porta do banheiro feminino mandando boas vibraçoes para os futuros candidatos a motoristas

Nao sabia se contar agora ou deixar para quando aprovasse, mas resolvi contar agora. Na segunda-feira passada, há exatos sete dias, fiz o meu primeiro exame prático de conduçao. E a experiência foi… desastrosa. E inequecível, com certeza.

Fomos quatro candidatas a obter a carta de habilitaçao, ou carnet, como se diz aqui. Éramos duas garotas de uns 20 e poucos anos, eu e outra moça que deveria estar mais ou menos na minha faixa etária. No caminho ao centro de exames, o professor fez um repasso verbal sobre os principais erros que cometemos nesse exame, conselhos, lembretes… eu estava super calma, tinha colocado na cabeça que provavelmente nao passaria porque é muito difícil na primeira vez, e que nao haveria problema, pois ainda tinha direito a uma segunda oportunidade. Mas as minhas colegas estavam super nervosas, uma delas (a que deveria ter uns 30 e poucos) disse que era a terceira vez que se examinava e contou que na primeira vez sequer conseguiu arrancar o carro. O clima era tenso. O céu estava bem nublado e eu estava preocupada porque nunca tinha dirigido com chuva.

Chegamos a DGT (Dirección General de Trafego, nosso Detran) vinte minutos antes de começar a prova, entao o professor ainda deu umas voltinhas ali dentro conosco, mostrando por onde provavelmente deveríamos sair com o carro, deu uns toques sobre as ruas proibidas e para tomar cuidado com os pedestres, essas coisas. Depois, nos disse que poderíamos aproveitar para ir ao banheiro enquanto o examinador nao chegava. Nós decidimos a ordem de quem se examinaria primeiro, segundo, terceiro e quarto. Eu fiquei com a última posiçao, mas tranquila. A moça que tentava pela terceira vez seria a minha companheira.

Eu estava tao tranquila que até me dei ao trabalho de fotografar as pixaçoes da porta do banheiro, como você pode ver na foto abaixo. Fiquei impressionada com a quantidade de mensagens de antigos tentantes, todos dizendo aos futuros para ficar calmo e confiar-se em si mesmo, que conseguiriam o tao desejado carnet. Acho que nunca vi tanta energia positiva numa porta de banheiro e nao resisti a fotografa-la.

Quando saí, minha colega disse que as duas meninas já tinham partido e ficamos ali, sentadas na escadinha da entrada da DGT, conversando um pouquinho. Ela estava uma pilha de nervos, fumava um cigarro atrás do outro. Cheguei a dizer: “por que você nao guarda um cigarro para mais tarde, para comemorar… assim você vai acabar com todos”, mas ela respondeu que tinha outro maço na bolsa. A cada carro da nossa autoescola que surgia (é uma autoescola com várias filiais em Madri), ela perguntava se era o nosso e reclamava que estava demorando demais. Ainda tentei animar, comentando: “se demora é bom sinal, é que elas estao conseguindo fazer bem, vai ver o examinador é bacana”. Ela nem me respondeu, duvidando muito da minha hipótese. Eu observava o movimento, havia várias pessoas ali, muitos que esperavam para se examinar. Alguns carros de autoescolas paravam e desciam pessoas chorando, ou furiosas, gritando. Era terrível.

Finalmente o carro apareceu e as duas companheiras desceram, rindo, nervosas. Perguntei para uma delas que tal tinha sido e a resposta foi: “nao sei”. Bom, dirigi-me ao assento traseiro e minha colega foi ao do condutor. Quando vejo o examinador, é um homem de uns 70 anos, sem exagero. A primeira coisa que pensei foi: “o que esse senhor está fazendo aqui? nao tinha que estar aposentado, nao?”, mas enfim, dei bom-dia, e ele respondeu, gentilmente, e disse à minha companheira que poderia arrumar o assento e os espelhos tranquilamente e arrancasse quando estivesse pronta. Pensei com os meus botoes: “pô, é um velhinho simpático”. Tá, tá bom. Eu mal sabia que o que estava para acontecer…

Minha colega hesitava para incorporar-se, porque muitos carros passavam ao nosso lado, e por alguns segundos pensei que novamente ela nao conseguiria mover o automóvel. O velhinho “tao simpático” ao meu lado levantou os olhos da prancheta e disse: “é para hoje ou para amanha?”, e vi pelo espelho que a colega já se amedrontou. Mas ok, ela se incorporou, e levou o carro na direçao indicada.

De repente, ela pára o carro.  Eu olhei e pensei: “o que está acontecendo?”. O professor, ao lado dela, também parece que pensou a mesma coisa e lançou-lhe um olhar preocupado. E entao ela diz ao examinador: “desculpe, mas é que estou bloqueada… para onde eu vou?”, e indica os dois sinais que tinha, um ao lado direito, outro ao lado esquerdo. À direita, o sinal era de rua proibida. À esquerda, indicava que por ali acabaria chegando na pista de motos. O examinador responde: “você que sabe aonde tem que ir”. Eu começo a sofrer por ela, e fico pensando: “vai na direçao da pista de motos, na direçao da pista de motos”, tento fazer uma telepatia com a coitada, mas já era tarde, ela nao sabia o que fazer, e o examinador perdeu todo aquele ar de bom velhinho e disse, quase gritando: “encoste este carro já”. Deu um sermao na coitada, quase que arremessou o seu documento de identidade para que ela pegasse, e ordenou que baixasse do carro. Ela perguntou: “espero aqui?” e ele: “você faça o que quiser, se quer esperar aqui, espere; se quiser tomar um café, que vá a cafeteria”. Fiquei besta, aturdida, impressionada, morrendo de pena da coitada, pensando que ele poderia ter dado uma segunda chance para ela, e entao… entao me toquei que era a minha vez!

Quando sentei no banco do condutor, me sentia nervosa, tudo o que tinha presenciado com a colega anterior serviu para me dar medo e fiquei pensando que poderia cometer a mesma coisa que ela. Aí vi que pensar isso nao me ajudaria nada e rapidamente tratei de esquecer e me concentrar na direçao. Muito bem, arranquei, retirei o carro de dentro do centro de exames, passei por um stop, fiz bem, o examinador me indicou o caminho e logo vi uma glorieta (via circular). Ele disse para eu tomar direçao Móstoles e assim fiz, entrei na glorieta com segurança, sem diminuir a velocidade, dei o sinal antes de sair, e tudo perfeito.

Neste momento, nao sei porque cargas d´àgua eu pensei “beleza, estou fazendo bem, estou fazendo bem”, olhei o meu professor de relance e notei que ele nao olhava para mim, o que interpretei como um bom sinal. O examinador nao parava de falar, parecia que tinha engolido um tocadiscos, e cheguei a duvidar que ele estava prestando atençao em mim. Eu me sentia bem, um pouco nervosa, mas era aquele nervosismo gostoso, aquele que te leva a continuar o que está fazendo e sentia que poderia terminar o exame.

De repente, nao me lembro porque, mas fui obrigada a tomar o carril esquerdo. O carro começou “a pedir” para meter a terceira marcha, e meti. Nao dá nem dois minutos e aparece uma sinal de glorieta a poucos metros. Pensei: “putz, nem bem meti a terceira, já vou ter que baixar pra segunda”. Olho a pista da direita, para mudar, e vejo que tem um carro branco. Nao tenho certeza se posso ultrapassa-lo ou nao, hesito, penso em ultrapassar, mas tenho medo do examinador. Decido nao ultrapassar e entrar na glorieta pelo carril interior.

Aí começo a meter os pés pelas maos, já estou nervosa, meto a segunda marcha quase na boca da glorieta, entro no carril interior e um diabinho do meu lado nao para de me dizer: “você tem que ir à direita, você tem que ir à direita”, e faço mençao de girar o volante para direita… quando o professor agarra o volante e me impede. E me olha com uma cara de: “acabou, Alessandra”. E sim, acabou.

O examinador me passou o maior sermao, nem me lembro direito do que ele disse, mas tratei de concordar com tudo, afinal eu nao tinha razao nenhuma. Voltamos ao centro de exames, faço que vou estacionar, mas o meu professor coloca a mao sobre a minha e diz: “Alessandra, basta”. Entao deixo o carro parado torcido mesmo, desço, e converso com as colegas que estavam esperando. Alguns minutos depois o professor aparece e informa que somente uma de nós passou. E voltamos à autoescola, com caras tristonhas, com raiva, xingando o examinador. Só eu que dava risada, e ainda disse. “puxa, eu estava fazendo tao bem, mas acabei comigo mesma”.

E assim foi. Agora tenho direito a uma segunda oportunidade, se nao passo terei que “renovar papeles”, ou seja, pagar novamente mais taxas… pensei em esperar o nascimento do Izan primeiro, mas conversando com o meu marido, chegamos a conclusao que é melhor tentar agora, antes que ele nasça. A barriga está grande e já atrapalha um pouco para dirigir, mas ainda dá. E espero que seja melhor, da próxima pedirei para ser a primeira a se examinar, porque esse lance de ficar esperando só te faz sentir-se mais nervosa, mais ainda se a sua colega anterior passou por um exame tao dramático como aconteceu com a minha. Tomara que eu tenha mais sorte!

Para quem quiser ter uma idéia de como é um exame prático de conduçao aqui em Madri, coloco abaixo um vídeo do programa espanhol El Intermedio. É um programa cômico e uma das reportéres fez um especial de matérias do tipo “jornalismo-verdade” em que ela mesma tinha que conseguir o carnet. Começou desde o momento que ela entrou para a autoescola, fez as aulas teóricas, o exame teórico, e este é o vídeo do seu primeiro exame prático, que também aconteceu na DGT de Móstoles. Ao final, ela conseguiu ser aprovada na segunda tentativa. Quem sabe eu também!

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8 Comentários

  1. Alê de deus, que medoooo!!! Eu estou procurando preços nas autoescolas por aqui. Tudo uma fortuna, mas logo estarei no seu lugar!!! Eu tirei carta no Brasil quando fiz 18 anos, mas nunca tive prática. Aqui se fala mesmo que é o terror sacar el carnet! Eu já tô com medo agora, porque até no Brasil eu reprovei na baliza não sei quantas vezes. Sou o maior braço duro!!! hahaha Mas tenho que aprender a dirigir, e lá vou eu de novo!!! Olha, eu penso assim: tem muito “barbeiro” aí no mundo que tirou carta, nós também podemos tirar e seremos umas barbeiras mais! Vai com fé, Alê!

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  2. Nao foi na primeira será na segunda! Os examinadores metem medo, eles nao deveriam ser tao carrancudos assim, isso só atrapalha o rendimento do aluno.
    Boa sorte na segunda tentativa

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  3. Renilse

     /  setembro 28, 2010

    Não desanime!!! Estou aqui torcendo pela sua segunda chance. Beijos

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  4. Oi Ale.
    Que examinador mais bruto!
    Mas é isso ai Ale, não desista não. Vc vai ver como da segunda vez vc consegue, até parece tudo mais fácil. :)

    Bjus da Ta

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  5. Muito obrigada pelos votos de todas! Olha Lucy, é caro mesmo, nao sei como é aí em Murcia mas em Madrid é um assalto… a minha autoescola cobra 27 euros por aula prática e é uma das mais baratas que eu achei. Já levo mais de 2 mil euros com essa brincadeira, dava pra fazer uma bela duma viagem ou um curso de inglês dos bons, mas enfim! Tinha que meter as caras, e aqui estamos! Só espero que isso acabe logo!

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  6. Fernanda

     /  outubro 1, 2010

    Alê,

    Já passei por isso. E fui com um grupo super nervoso também. Assim que pude me separei do grupo e fiquei sozinha, mas não por ser chata ou anti-social, e sim porque senão ficaria nervosa se ficasse junto com eles. Por conta disso, acharam que eu era a mais calma da turma e fui a primeira da turma a fazer o teste.

    Isso foi bom para mim, pois vi gente saindo do carro chorando por não ter passado (aqui a gente já sabe na hora) e com certeza isso acabaria com a minha estabilidade. Experimente ser a primeira da próxima vez, pode te ajudar.

    Beijos

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    • Foi o que eu pensei, Fe, acho que o nervosismo da moça me contaminou também. Da próxima vez, eu quero ser a primeira do primeiro grupo, porque assim nao corro o risco outra vez! Thanks!

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  1. Um dia ruim | En Algún Lugar del Jarama

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