Até logo!

Bem, depois de pensar e pensar, decidi que aqui termina o “En Algun Lugar del Jarama”.

Desde que me tornei mae, minha vida está tao atribulada, é impressionante como um ser tao pequeno te dê tanto trabalho e ocupe tanto o seu dia… fora que minha cabeça mudou, minha forma de ver mudou, meu ser mudou. Nao tenho mais vontade de escrever sobre os temas que escrevia aqui, agora entrei no “mundo mami” totalmente. Sim, eu estou fazendo aquilo que sempre disse que nunca faria: ser uma mae chata que só sabe falar do filho e de filhos. Fazer o que? Ter um filho é como se apaixonar, só temos os nossos pensamentos voltados a ele!

Criei outro blog para falar sobre isso, minha maternidade, meu filho, minha nova vida, minhas novas descobertas. Quem estiver interessado, pode me visitar na casa nova: http://chuvaesolmaedeespanhol.wordpress.com, será um prazer receber! Mas nao espere temas sobre a vida na Espanha, a nao ser que seja algo como “como ser mae na Espanha”, pois resolvi assumir mesmo meu lado “maruja” total e sem nenhum remorso. Maruja sim, mas uma maruja moderninha, claro… nada de reclamar que as croquetas ficaram duras ou sobre o penteado da Belen Esteban. Maruja moderninha me refiro: questionar os modelos de educaçao e criaçao, como sao as escolas infantis espanholas, os alimentos infantis espanhóis, as brincadeiras e cançoes das crianças espanholas, as creches, as brinquedotecas, e tudo o que se relaciona com crianças e sua criaçao, mas do ponto de vista de uma brasileira que mora na Espanha e é mae de um espanholzinho.

Nao deletarei o “En Algun Lugar del Jarama” porque tenho muito carinho por este blog, foi o meu primeiro blog que deu certo, começou como “Próxima Estación”, participou de concurso, me fez conhecer muita gente bacana em todo o mundo, algumas dessas pessoas se tornaram amigas reais, e tudo isso devo a ele.

A quem estiver interessado em procurar informaçao sobre a vida na Espanha, há muitos blogs porai que tratam disso muito bem, como o Brasil com Z, Coisa Parecida, Feriado Pessoal, Flanâncias… muita gente boa dando o seu pitaco sobre a terra da paella para os brazucas que querem vir pra cá ou já que estao. Eu cheguei a conclusao que já dei a minha palavra sobre o assunto, quem sabe um dia eu mude de idéia e volte, se tiver alguma coisa mais a dizer… mas por enquanto só quero mesmo curtir minha nova faceta de mamae.

Um beijo grande a todos os leitores e seguidores, muitíssimo obrigada pelos comentários dados com tanto carinho, aos elogios, palavras de apoio… todos e todas foram muito importantes e chegaram ao meu coraçao!

A gente se vê nessa rede grande de meu Deus!

2010, um ano inesquecível

E mais um ano acaba, outro começa e muitas aventuras despontarão pelo caminho! E, creio, pela primeira vez, sinto muita tranquilidade para encarar o que vem por aí!
Sem dúvida 2010 foi um ano inesquecível. No começo, senti medo, porque não parecia que ia ser legal. Estava desempregada, tentando ficar grávida e nada… Parecia desanimador.
Mas tudo se transformou. A poucos dias do meu aniversário, descobri que estava grávida. E de ali até 14 de dezembro, quando nasceu meu filho, entrei numa grande viagem dentro de mim mesma. E descobri coisas de mim que nem sabia que existiam. Uma mãe nasceu, e com ela, uma mulher muito melhor. Mais madura, mais tranquila, com novos valores.
Tentei tirar carta, não consegui, mas sim descobri que posso controlar o meu medo. Tudo é questão de tempo.
Fiz cursos visando uma nova profissão, que não logrei, mas ainda saberei se esse é o caminho certo. E se não for, tudo bem.
A experiência do ano foi mesmo a maternidade. Tão doce, e ao mesmo tempo, tão dolorosa no final. Redescobri uma nova mulher em mim, revisei minha opinião sobre a minha mãe, compreendi seus erros e perdoei todos. O sofrimento trouxe o mais belo presente e agora, a cada dia, vou aprendendo a como lidar com ele. Não é fácil, mas é apaixonante. E agora… A ver o que vem porai!

Fechado pra (Cadeira de) Balanço!

Bem, amigos, é isso. Tá difícil de levar o blog esses dias em que chego ao final da minha gravidez, ainda mais que amanhã chegam os meus pais do Brasil aqui e não terei tempo meeeeesmo para escrever. Então deixo esse mini post para explicar que já estou de licença maternidade não remunerada como blogueira, rs.
Aviso que estamos bem, me sinto muito disposta e Izan ainda não deu sinal de que quer deixar seu ninho quentinho. Estou na semana 39, a data prevista de nascimento é 1/12, mas até 15/12 esse menino tem que nascer!
Prometo que darei notícias assim que o futuro integrante da família chegar, nem que seja por outro mini post.
E… é isso! Tenho muitas idéias para futuros posts e até penso em algumas mudanças para o blog, espero que a licença maternidade não seja muito longa, pois sentirei saudades de escrever! Só que agora preciso voltar-me totalmente para esse pequenino que está chegando.
Besitos!!!

Fazer ou nao um cruzeiro? Eis a questao

 

Fizemos nosso cruzeiro de lua-de-mel neste barco: o Costa Fortuna

 

 

OK, este post vai com um atraso incrível de mais de dois anos, mas como dizem os meus amigos, “antes tarde do que mais tarde”! Entao aí vamos, vou contar como foi a minha experiência quando fiz um cruzeiro de lua-de-mel, em outubro de 2008, com a empresa Viagens Costa, aqui em Madrid.

Bem, para começar que eu nao queria fazer um cruzeiro! Foi o meu marido que se empenhou em me convencer. Eu sim fazia questao de passar a lua-de-mel em Veneza, porque era um sonho de menina que eu tinha (pode ser bobo, piegas, clichê, mas era um sonho). Ele, queria porque queria fazer um cruzeiro. Eu dizia que nao, de jeito nenhum, que ele era louco, que iria sair os olhos da cara… fora que eu nao entraria num navio nem que me pagassem!

Explico: quando tinha 15 anos, quase morri afogada na piscina da escola. Desde entao, levo esse trauma comigo e nao consegui aprender a nadar. Sou dessas pessoas que, na praia, nao passa do mar pela altura dos joelhos (se passo da altura da cintura começo a ter taquicardia), já tive ataque de pânico numa praia porque um ex namorado insistia que eu tinha que enfrentar o medo e me largou sozinha no meio do mar segurando a cordinha com bóias que separa a zona permitida da zona proibida… assim que, água comigo, é um problema sério.

Entao, logicamente, eu sentia pavor de entrar num navio e ficava pensando que poderia acontecer o mesmo que houve com o Titanic. Compreendi entao as pessoas que tem fobia a aviao, coisa que felizmente jamais tive, mas fiquei mesmo com muito medo. Mas a base de muita conversa com o meu marido, muita pesquisa, e a base de conversar com pessoas que tinham feito cruzeiros, acabei “dando uma chance”. Afinal, quando uma pessoa se casa, precisa aprender a ceder, nao é mesmo?

Coloquei como condiçao que o cruzeiro tinha que passar por Veneza e o meu marido aceitou numa boa. Felizmente, ele também tinha vontade de conhecer a cidade dos canais. Eu ainda tinha um pouco de ranço com o cruzeiro, porque ficava pensando que deveria ser um saco ficar uma semana dentro de um barco, só saindo de vez em quando para conhecer as cidades das paradas, naquele velho esquema de excursao onde tudo é feito muito rapidamente e você acaba nao vendo nada. Eu sempre fui de viajar sozinha, de bolar o meu roteiro a minha maneira, com um guia na mao e alguns euros no bolso, nao me importando com hotéis muquifo ou comer só Mc Donald´s, contanto que pudesse ver todos os lugares que gostaria de ver, pelo tempo que quisesse ver. Meu marido também é partidário desse tipo de turismo (tanto que ele fez um “mochilao” com os amigos antes de me conhecer por vários países europeus, só de Interrail), mas ele disse que agora queria fazer algo diferente, algo mais tranquilo, que permitisse descansar mais e nao se preocupar em pegar trens, ônibus, carros de aluguel… ele queria algo mais em plano luxo, mesmo.

Ficamos em dúvida entre a MSC e a Costa, e no fim acabamos decidindo pela segunda porque demoramos muito para dar resposta e, quando fomos à agência, era tarde demais e nao havia mais camarotes livres com a MSC. Assim que fomos de Costa, pegamos um camarote mais ou menos na altura da metade do barco, com direito a sacada. Aproveitamos uma promoçao para noivos que faziam na época e nao ficou tao caro. O roteiro: Veneza, Bari, Katakolon, Mykonos, Santorini, Rhodes, Dubrovnik e Veneza novamente, com um dia de navegaçao.  O problema era que nao daria tempo para a gente curtir Veneza direito, porque o nosso vôo chegava ali quase que na hora de zarpar o barco, entao acabamos pagando também duas noites de hotel em Veneza para aproveitar o final da viagem. Escolhemos um hotel 3 estrelas maravilhoso, com um atendimento perfeito, pertinho da Praça Sao Marcos. Mas sobre ele eu falo depois…

Muito bem, nos casamos num sábado, o domingo tiramos para descansar e pegamos o vôo Madrid-Veneza às 7h da manha de segunda. Chegando ali, a agência tinha colocado um furgao para nos levar até o porto. Foi fácil encontrar o local onde estava o Costa Fortuna, nosso “barquinho”. O atendimento de check-in foi rápido e sem problemas. As malas sao deixadas com o pessoal da Costa, que trata de coloca-las no camarote do passageiro. Ou seja, primeira vantagem em relaçao ao aviao: você nao precisa ficar esperando as suas malas aparecerem na esteira, porque elas sao deixadas na porta do seu camarote. Confesso que a caipira aqui ficou besta e pensou que ia dar xabu, mas foi perfeito, quando chegamos ao nosso camarote nossas duas malas estavam nos esperando perfeitas.

O camarote tinha uma decoraçao meio anos 70, mas era espaçoso. Tinha um banheiro pequeno, mas que dava muito bem para duas pessoas. Armários, muitas gavetas, uma TV que mostrava programaçao normal da Itália e também alguns canais próprios da Costa, onde você podia se informar, por exemplo, sobre quantos euros já levava gastos com os passeios e outras despesas feitas no barco, a programaçao do dia seguinte, o mapa em que mostrava onde estava passando o barco naquele momento… o mais legal, com certeza, era a sacada, onde pudemos fazer umas fotos muito bacanas, como estas:

Quando você chega no barco, após arrumar as suas coisas, deve registrar o seu cartao de crédito para pagar as despesas dentro do barco. Quem nao tem cartao de crédito deve fazer um pagamento de um valor x (nao me lembro agora de quanto era, sinto muito), e de ali vao sacando todas as suas despesas. O pessoal da Costa nos entregou um cartao magnético que servia para pagar todas as despesas e também servia como controle na hora que você deixava o barco nos passeios, uma espécie de passaportezinho, ou crachá, se preferir. Servia para te identificar como passageiro do barco e você devia sempre leva-lo em cima durante todo o cruzeiro.

Também te dao um roteiro com todos os passeios que sao possíveis de realizar pelas cidades onde o barco faz as paradas. Nós escolhemos os nossos logo no primeiro dia para garantir lugar, pois tínhamos medo de deixar para depois e aí nos avisarem que estava lotado. Os passeios saem bem caros, eu devo dizer, mas valem a pena. Nós nao nos arrependemos, apesar que nao foram perfeitos. Houve de tudo, na verdade. Em Katakolon, tivemos um guia maravilhoso que conseguiu nos contar a história dos primeiros Jogos Olímpicos sem ser chato, e ainda nos deu tempo para fazer fotos e ficar à vontade pelo sítio arqueológico. Já em Dubrovnik, a excursao foi péssima, a guia era chatíssima, parecia que tinha decorado um livro e só nos levou a igrejas que, sinceramente, nao vi muita graça. O bom é que o dia de Dubrovnik era um dos mais largos, isto é, o passeio durou o dia todo praticamente, e depois da excursao chata eu e o Ernesto demos uma volta por nossa conta e subimos a muralha, que é maravilhosa.

Mykonos, Santorini e Rhodes eu já conhecia e nao me surpreendi muito, a nao ser com Santorini, que parece ter cada dia mais turistas e estar cada vez mais insuportável. Em Mykonos passamos uma tarde, vimos uma igrejinha ortodoxa,  e demos uma volta pela ilha, mas infelizmente nao visitamos as praias, que sao o melhor da ilha com certeza. Ao final, tivemos um jantar tipicamente grego para todos os casais que estavam de lua-de-mel e pudemos nos conhecer. Havia muitos casais espanhóis no nosso barco.

Rhodes também teve excursao de dia inteiro e foi melhor aproveitado que Dubrovnik, fomos ao Castelo de los Grao-Mestres, demos uma volta pela cidade medieval, também estivemos em Lindos e pudemos dar um mergulho rápido na praia de Faliraki.

A organizaçao da Costa, em minha opiniao, foi perfeita. Nos dias dos passeios, tínhamos que nos reunir no teatro do barco por volta das 8h mais ou menos, e de ali formavam os grupos. Havia funcionários que falavam italiano, francês, inglês, espanhol, português. O atendimento foi impecável. Ás vezes a gente atracava em um porto, mas também houve vezes que nao era possível atracar pelo tamanho do navio, entao parávamos um pouco antes e tínhamos que tomar um barco ou lancha para ir até o porto. Confesso que senti um pouco de medo no começo, mas passou logo.

 

Vista de uma das piscinas do Costa Fortuna

 

 

E aquela visao preconceituosa que eu tinha de que a vida dentro do barco deveria ser “um saco” era o mais longe da realidade! Havia saunas, jacuzzi, pista de cooper, quadras de esportes… para quem vai com crianças há atividades especialmente para elas, e também para os velhinhos, como aulas de aeróbica, dança de salao… à noite jantávamos em um dos restaurantes do barco e depois podíamos ir a algum bar, cantar em um karaokê, jogar no cassino… enfim, há muitas opçoes para se distrair. Também havia atividades organizadas pelo pessoal responsável por entretenimento, como concursos entre passageiros e tal. Eu só achei muito voltado a pessoas mais velhas, e nao me senti identificada com nenhuma atividade, acho que eles deveriam pensar mais no pessoal mais jovem. Inclusive deixei isso anotado na crítica que pedem para você preencher no final da viagem.

 

Pessoal fazendo aquaerobic

 

 

O melhor era a comida, hehehehe… sou uma gulosa de mao cheia! Havia vários buffet self-service, alguns funcionavam 24 horas, e eu engordei bastante… também aproveitamos o spa do navio e aproveitamos o dia de navegaçao para uma sessao de massagem.

A pergunta final é: dá medo ou nao? Resposta: nao. Eu esqueci completamente do meu medo ao mar quando comecei a passear dentro do barco. Aquilo é enorme, parece uma cidade, e você se sente muito seguro ali dentro. Em nenhum momento tive náuseas, nao passei mal em nenhum dia, e olha que aconteceu de, uma noite, o barco passar por uma zona com fortes ventos e dar umas entortadas que nos obrigavam a se apoiar na parede ou no corrimao de segurança, mas nada que a gente nao desse risada e achasse engraçado.

 

Foto que o Ernesto fez para comparar o tamanho do navio com o de uma pessoa. Essa "formiguinha" aí embaixo à direita sou eu, que tenho 1,68m de altura. Assim já dá para imaginar como o bicho é grande!

 

 

Acho que o cruzeiro vale a pena para quem está a fim de um passeio sem se preocupar com traslados ou ficar procurando alojamento. A melhor coisa do barco é que ele te leva a todas as partes, te espera, e você ainda dorme nele. É muito cômodo. Deu para a gente descansar da correria dos últimos dias pré-casamento (que sao super estressantes, só quem já se casou sabe). Nos sentimos um pouco como “senhores” pelo atendimento dos funcionários do barco, que sao muito educados e eficientes. Para cada camarote há uma responsável de limpeza encarregada, e se você tiver algum problema de manutençao (chuveiro que nao funciona, falta de Coca-Cola no frigobar etc), é só falar com ela, ou deixar um recado escrito, que rapidamente é resolvido. Fora os pequenos detalhes que fazem a diferença, como um dia que chegamos de mais uma excursao cansativa, e encontramos a nossa cama arrumada assim:

 

Olha que graça a colcha dobrada em forma de coraçao, junto com o jornalzinho do dia que informava a programaçao do dia seguinte, cardápio do café da manha se você preferia pedir no quarto, e o pijama de Ernesto devidamente dobrado

 

 

 

Com certeza eu faria outro cruzeiro, mas gostaria de provar com outra empresa. Nao por nada, só por conhecer mesmo. Ernesto e eu pensamos em fazer o roteiro dos fiordos noruegueses, quem sabe um dia, ou algum que passe pela Turquia… agora que a família vai crescer, acho que será interessante, pois viajar com um bebê sempre é mais difícil do que viajar só a dois, e o cruzeiro é uma boa opçao para casais com filhos. Mas nao pense que mudamos tanto – ainda queremos viajar novamente de mochilao, fazendo nossos roteiros, parando em vários hotéis, como nos nossos velhos tempos de “20 e poucos” anos. Isso sim, adaptando nossa realidade para os “30 e muitos” que temos agora, hehehehe. Nao sei se aguentaríamos tantos dias andando a base de Big Mac (a idade chega para todo mundo), mas temos planos de alugar um carro ou uma autocaravana e ir poraí. Só espero que essa crise econômica acabe logo para que eu possa arrumar um emprego e voltar aos meus tempos de viajante, agora com mais alguém a tiracolo!

Minha terriña galega

A Torre de Hércules, em La Coruña - foto de 2003 by Alessandra Mosquera

Já faz tempo que quero falar sobre a Galícia aqui. Mas sabe como é, tinha que escanear umas fotos e para isso a gente vai sempre deixando para outro dia… mas este dia chegou, escaneei! E aqui vamos ao post sobre essa terra tao bonita!

Eu sou totalmente suspeita para falar sobre a Galícia. Como muitos sabem, meu pai é galego (de La Coruña), e eu cresci ouvindo ele contar histórias de sua terra. Sempre quis conhece-la e dizia que, um dia, “quando fosse grande e ganhasse dinheiro”, eu iria. Fui a Galícia pela primeira vez em 2001, quando tinha 27 anos (era grande, mas nao ganhava muito dinheiro, rs), na minha primeira viagem a Espanha. E gostei muito. Foi uma viagem mágica. Conheci meus tios e primos que só conhecia por fotos e de ouvir falar pela boca do meu pai – e só quem passou por uma experiência dessas sabe como é estranho crescer ouvindo falar de uma pessoa, e depois de muitos anos, te-la diante de ti – e também conheci onde ele passou, as praias onde ele nadou, até o pueblo onde ele cresceu e o outro, onde ele ia “de cachondeo” (para divertir-se), quando era jovem.

Mas para quem nao sabe, a Galícia é uma comunidade autônoma que está ao noroeste da península ibérica. Vou colocar aí embaixo um mapa que copiei do nosso querido Wikipedia, e quem deseja saber mais detalhes geográficos e históricos dessa regiao, pode dar uma olhada lá.

Mapa da Península Ibérica; a Galícia é a zona destacada em vermelho . Foto by Wikipedia

Terra de duas línguas (como Cataluña e Euskadi), na Galícia o pessoal fala castelhano e gallego, uma língua que, segundo os espanhóis castelhanos (e alguns brasileiros também), “é uma mistura de espanhol com português”. Hmmm, tenho as minhas dúvidas quanto a isso. É verdade que há muitas palavras parecidas com o português, mas nao pense que seja tudo igualzinho, igualzinho, que nao é, nao. Ouvir um aldeao galego falar em sua língua amada é uma missao quase impossível para um brasileiro compreender! Garanto isso, pois quando conheci meus primos (muitos sao gente de interiorzao mesmo), eu nao conseguia entender nada o que eles me falavam. Começavam um discurso enorme em galego, pensando que eu iria compreender por falar português, e que nada, viu… é uma língua com suas complicaçoes, como todas.

Em Finisterre, cercada de névoa e de vento; Coruña também é muito conhecida por seus fortes ventos. Foto de 2003 by Alessandra Mosquera

Também é uma terra de uma comida MARAVILHOSA (e me desculpem pelo Caps Lock, mas eu tinha que expressar assim), baseada em peixes e frutos do mar, mas também em verduras, batatas etc. A estrela da cozinha galega é o pulpo (polvo), cozido e servido com azeite de oliva, sal e pimentao em pó, junto com rodelas de batata. Para acompanhar, nada como um belo vinho Albariño ou um Ribeiro. Também recomendo a empanada galega, uma espécie de empada grandona, geralmente recheada com atum ou bacalhau (há outros tipos de recheio, mas esses sao os mais comuns). Muuuuuiiito bom!

Vista próxima a Ézaro, na Costa da Morte - foto by Alessandra Mosquera

A Galícia é conhecida como “Espanha Verde”  porque possui os campos mais bonitos da Espanha, e que estao sempre verdes, já que ali chove muito. Coruña, aliás, tem um ar meio londrino, pois a maior parte do ano chove ou faz névoa, lembrando muito a capital inglesa. Enquanto do centro para baixo imperam os campos secos e amarilentos da Espanha, nesse pedaço do norte (e também em Astúrias, Cantábria, Euskadi etc) sempre há verde. E também há praias, muito bonitas e limpas, mas com um mar extremamente gelado! Uma das praias mais famosas é a Playa de las Catedrales, que está na regiao de Lugo, com formaçoes rochosas que lembram uma catedral. Há épocas do ano que a maré sobe e as tais “catedrais” ficam cheias de água.

Praia das Catedrais, em Ribadeo, província de Lugo; no verao enche de turistas, que aproveita quando a maré está baixa - foto by Alessandra Mosquera

Na costa galega também há ilhas, como as famosas Islas Cíes, em Pontevedra. Ali infelizmente nunca fui, mas está no caderninho de “Futuras Viagens”! A foto abaixo nao é minha, é do site MuchoViaje.Com, mas coloco para vocês terem uma idéia do que é isto…

Uma praia das Ilhas Cíes - foto by MuchoViaje.com

O povo galego é completamente diferente do madrilenho, do andaluz, e creio que de todos os outros da Espanha. É um povo reservado, calado, sério e um pouco triste, até; mas depois que você os conhece um pouco melhor, eles se abrem e demonstram um coraçao de ouro. Já escutei muitos madrilenhos dizendo “los gallegos son raros” (os galegos sao estranhos), e realmente à primeira vista eles podem passar essa impressao, porque sao muito introspectivos. Será o frio? Será a proximidade com Portugal? Nao sei. Mas eu acho que é uma casca, porque quando você começa a conhece-los melhor, percebe que nao sao nada disso, só sao mais “na deles”. Sao pessoas muito generosas. E ouvi-los falar  – em castelhano mesmo – é muito gostoso. O sotaque galego é o mais bonito de toda a Espanha (olha eu aqui outra vez sendo nada imparcial, rs), é musical, doce. Só quem já ouviu sabe. Aí eu desconfio que seja pela influência do português, rs. Só é preciso tomar cuidado com uma coisa: brasileiro pega rapidinho o sotaque galego (alguns espanhóis também, como o meu marido)! Eu passo cinco minutos conversando com os meus primos e já estou falando como eles, rs.

Catedral de Santiago de Compostela - foto by Alessandra Mosquera

A Galícia é mais conhecida pelo famoso Caminho de Santiago, que a cada ano traz mais peregrinos, de todas as partes do mundo, aqui. Quem já fez o Caminho diz que é uma experiência única, mágica, inesquecível, e muitos acabam “se viciando” e repetem. Há vários caminhos, mas todos levam ao mesmo objetivo final: a Catedral de Santiago de Compostela, monumental, belíssima, uma das mais bonitas de toda a Espanha. Parece um pedaço da Idade Média em pleno século 21, e assistir a uma missa ali é muito especial, principalmente quando o padre usa o butafumeiro, que enche a igreja com cheiro de incenso.

Na Galícia também há história, como as muralhas romanas de Lugo, que cercam a cidade.  Mas nao foram só os romanos que passaram por ali, os celtas também.

As Muralhas Romanas de Lugo - foto by Alessandra Mosquera

Eu passeando entre as Muralhas Romanas de Lugo - foto de 2003 - by Alessandra Mosquera

Enfim, para mim Galícia é romantismo, mistério, bucolismo, é estar em si mesmo, é estar com os demais. Recomendo a todos que conheçam essa regiao, seja você amante de campo e montanha ou amante de praia, porque poderá se surpreender com o que irá encontrar. Aqueles que nao suportam as altas temperaturas do verao madrilenho ou do sul espanhol também encontrarao muito prazer na Galícia, onde nao faz esse calor infernal de 40 graus ou mais. Tem de tudo, para todos os gostos e bolsos. Nao é uma regiao muito cara e pode-se comer muito e bem em uma marisqueria galega por muitíssimo menos dinheiro que em Madrid. Para quem gosta de caminhar, fotografar, estar em contato com a natureza. Mas, para mim, pessoalmente, a Galícia é um pedaço do meu coraçao, onde me sinto mais próxima de minhas raízes. Amo miña terriña galega! 

Vista desde o alto da Torre de Hércules, em Coruña. O mar e a névoa, que sempre estao ligados a essa regiao, dá um clima melancólico mas romântico . Foto by Alessandra Mosquera

Os espanhóis e a internet

Ao contrário dos brasileiros, que adoram Twitter, Orkut, Facebook e afins, e já sao um dos povos mais conectados do mundo à grande rede, os espanhóis estao no posto 22 entre 27 países europeus que mais usam as redes sociais.

Ainda me lembro quando fiz o meu perfil no Orkut em 2004 e logo virou uma febre no Brasil. Quando eu perguntava a algum espanhol sobre a rede social de Google, ele nao sabia do que se tratava. Aliás, é assim até hoje.

O Facebook chegou em meados de 2007 e logo virou mania, mas mesmo assim o espanhol nao é tao ligado quanto o brasileiro é ao Orkut. Hoje em dia, cerca de 10 milhoes de espanhóis têm perfil na rede criada por Mark Zuckerberg.

Dizem que os espanhóis nao sao tao conectados a internet como os americanos e os brasileiros devido ao alto preço da tarifa de ADSL, a banda larga espanhola. De acordo com a OCU (uma espécie de Procon), o espanhol paga mais por ADSL do que os franceses, alemaes e muitos de seus companheiros europeus, fora que a rapidez de conexao nao é assim uma Brastemp.

Acredito nisso, mas eu acho que ainda há muito medo entre os espanhóis em relaçao às redes sociais. Muita gente que conheço nao usa o Facebook por medo de ter sua vida exposta, que algum hacker consiga descobrir onde a pessoa mora ou os seus dados bancários e que acabe com as suas economias. Fora que, simplesmente, nao gostam de chatear, nem de colocar fotos pessoais, muito menos vídeos. É claro que isso é mais comum entre o pessoal acima de 50 anos, mas mesmo entre os jovens, às vezes noto um certo ceticismo em relaçao ao Facebook. E quando eu digo que tenho perfil no Facebook, no Twitter (“tuí… qué?”), e dois blogs, às vezes me olham como se eu fosse maluca e me perguntam se nao temo de ter minha vida pessoal tao exposta. Explico que seleciono as informaçoes que exponho, que meus álbuns de fotos só sao visíveis aos amigos e tomo cuidado com o que coloco na net, mas mesmo assim eles nao se convencem.

Tenho notado que tem crescido o número de espanhóis no Twitter, mas ainda assim é muito comum encontrar alguém que nao conheça a famosa rede de microblogging. A coisa ainda nao pegou por essas bandas, e nao sei se pegará. É verdade que a galera mais jovem é mais aberta a isso, mas nao sei. Um dia que comentei que enviava mensagens às minhas amigas pelo Facebook para saber quando poderíamos sair, por exemplo, uma conhecida espanhola me disse: “e por que você nao telefona para ela, simplesmente?”. Acho que o espanhol ainda é mais apegado ao contato direto, a escutar a voz do outro, e nao consegue entender “a frieza” da tela do computador. Frieza, para eles, claro, porque para mim a internet é uma tremenda mao na roda, que nos faz economizar tempo, dinheiro, e que ainda pode nos proporcionar muitas experiências boas (fazer amigos, adquirir informaçao, diversao etc).

Licença – paternidade na Espanha

Os papais espanhóis têm 15 dias de licença-paternidade. Os dois primeiros dias, que devem coincidir com o dia do nascimento do bebê e o dia seguinte ao parto, sao obrigatórios que sejam desfrutados nesses exatos dias. Os 13 seguintes podem ser desfrutados quando o pai desejar, dentro de um limite de nove meses desde o nascimento. Em caso de adoçao, o direito permanece.

O governo havia aprovado uma lei que ampliava a licença-paternidade para um mês e começaria a valer em janeiro de 2011. Infelizmente, assim como o cheque-bebê, a lei acabou sendo extinguida antes mesmo de ser implantada devido a crise econômica.

É também possível que a mae ceda parte de sua licença-maternidade (que sao de 4 meses) ao pai. Se a família for considerada “família numerosa” (pai, mae, 3 filhos ou mais), entao o direito passa a ser de 20 dias naturais. E, no caso de nascer gêmeos (ou de adota-los) a licença se amplia para dois dias mais por cada filho a partir do segundo.

Isso está muito bem, e a Espanha é um dos países europeus que facilitam mais dias aos pais para desfrutar de seus filhos, apesar que nao chegamos ainda aos pés dos países escandinavos, como Suécia, onde a licença é de 10 semanas (e ali a mae tem um ano de licença-maternidade, diga-se de passagem). Espera-se que, com o passar dos anos, e com a melhoria da economia, as licenças aqui aumentem.

Uma vez, li um artigo em uma revista feminina que criticava a licença paternidade, dizendo que os homens nao precisam de mais dias e sim que deveria haver um equilíbrio entre o homem e a mulher, alegando que isso sim era igualdade, e que muitos homens nao fazem nada durante a licença, deixando todo o trabalho das primeiras semanas com o bebê nas costas da mae. Eu nao concordo com isso, acho que cada caso é um caso, e se existem maridos (ou companheiros) que nao ajudam as suas mulheres, também há muitos outros que sim ajudam, e que seria excelente ter mais dias para poder dar uma mao a mulher nesse período crítico. Afinal, sao tantos documentos que devem ser providenciados, fora o trabalho de dia-a-dia com o bebê, de dar banho, mamadeira (no caso daqueles que nao estao sendo amamentados pela mae), troca-lo, levar ao pediatra… os primeiros 30 dias da vida de um bebê levam os pais à loucura com a quantidade de coisas novas que devem fazer. Isso sem contar que eles ainda nao conhecem o bebê, o bebê nao os conhece, e essa fase para familiarizar-se pode durar algum tempo.

Nao digo isso apenas baseando-se no meu caso, pois o meu marido está louco para participar com as tarefas do bebê, posso dizer que tirei a sorte grande porque ele é muito prestativo mesmo, principalmente agora que vai ser pai. Ele nao tem nada daquele modelo antigo de pai, que ficava à margem, deixando todas as tarefas para a mae realizar enquanto ele apenas se preocupava em trazer dinheiro a casa. Mas eu vejo que esse modelo está caindo, a maioria dos pais jovens que conheço (amigos e maridos de amigas) sao cada vez mais participativos, mais atuantes, mais carinhosos com os bebês e interessados em saber tudo sobre esse mundo. No meu curso de preparaçao ao parto havia muitos maridos acompanhando as suas mulheres grávidas e faziam perguntas à matrona, nao ficavam calados nao. Perguntavam desde dúvidas relacionadas com direitos do pai até sobre cuidados com o recém nascido ou mesmo dos procedimentos de parto. O homem está mudando, cada vez ajuda mais a mulher, cada vez deseja mais ser um pai atuante. Nas revistas para grávidas há seçoes especiais para eles. E basta dar uma volta pelo bairro para ver quantos papais estao passeando com carrinhos de bebês ou vigiando crianças nos parquinhos.

A propaganda do Mini Coutryman que está passando atualmente na TV espanhola é uma das minhas favoritas. Um grupo de amigos, provavelmente indo a algum “programa de homens” (um jogo de futebol, talvez), e um deles leva seu filhinho, que, de repente, faz xixi no carro. É hilário e ao mesmo tempo, muito doce. Para mim, esse comercial representa bem como é o novo homem. Cada dia que passa, eles se envolvem mais com os filhos. E eu acho que devemos deixa-los exercer esse papel, para o bem deles e de nossos filhos. E espero que o governo da Espanha, do Brasil e de todos os países do mundo, levem esse assunto mais a sério e percebam que é importante criar leis que ajudem os pais e as maes para trazer novos cidadaos ao mundo.

Um dia ruim

Ontem foi o meu segundo exame prático de condução. E não passei.

Nao ia contar nada sobre isso aqui no blog, tinha prometido pra mim mesma que não o faria, porque me sentia péssima ontem e morria de vergonha de mim mesma, me senti uma perfeita derrotada e patética, e pretendia passar batido, mas sabe como é… a gente dorme, acorda, tem outra cabeça e acabei mudando de idéia. Hoje me sinto melhor e resolvi voltar atrás na minha promessa e contar para vocês como foi, afinal, o blog também serve para a gente desabafar, né?

Muito bem, depois do meu primeiro exame fiasco, eu e o Ernesto conversamos e decidimos que eu faria mais dez aulas práticas até o dia do segundo exame. Seria a minha última oportunidade para conseguir a carta, se eu não passasse agora, então teria que “renovar papeles”, isto é, pagar uma taxa de renovação (de quase 300 euros). Para mim, o mais importante nem era o dinheiro em si, mas é que como estou grávida, sei que depois que o Izan nascer não terei mais tempo para nada e ficará muito difícil retomar a auto escola, assim que eu meti na cabeça que dessa vez tinha que conseguir a carta, porque depois será muito difícil conseguir, muito mais do que agora, que tenho todo o tempo do mundo. Talvez seja até mesmo impossível, com bebê pequeno e tendo que procurar emprego. Se conseguir trabalho, coloco o Izan na creche, mas mesmo assim, com que tempo farei auto escola, se terei de trabalhar e de busca-lo na creche, cuidar da casa…

Muito bem, fiz as aulas, no começo ia bem, mas nas últimas eu não sei o que houve, comecei a regredir tudo, a cometer falhas idiotas, coisa de quem está começando a aprender. Meu professor até me disse que não sabia o que estava acontecendo comigo. Pensei que era o nervosismo porque o dia da prova estava chegando, e procurei não dar atenção para isso. No última dia de aula me esforcei ao máximo e até consegui dirigir melhor, cometi menos falhas, ele só disse que eu havia feito mal as incorporações à autopista, mas de resto, estava melhor.

No dia anterior ao exame, Ernesto conversou comigo, falou para eu ficar tranquila, que se não desse novamente não tinha problema nenhum, que eu não devia ficar nervosa, que ele não iria ficar bravo comigo e que não havia importância nenhuma se eu não passasse. Eu respondi: “claro que tem importância, eu quero passar”. E putzgrila, como me vi nesse momento na véspera da Fuvest 92… eu falei a mesma coisa para o meu pai na véspera do vestibular e não passei.

O exame estava marcado para as 9h30 da manha, mas eu tinha que estar na auto escola às 7h30 porque duas meninas iriam fazer suas últimas aulas práticas antes da prova. Acordei às 6h da manha, fazia um frio danado, cheguei na auto escola às 7h,  fiquei esperando dentro do centro comercial onde está até as 7h20 e fui à rua, onde sempre ficam os carros da auto escola. Vi chegar um rapaz, que seria outro candidato, e as duas meninas, e depois, o professor. Estava calma, um pouco tensa, mas não estava desesperada.

A primeira garota não fez uma aula muito boa, e eu pensei “deve estar nervosa, essa menina não vai passar”. Já a segunda fez tudo perfeito, estava dando risada, parecia muito segura de si e eu pensei “essa passa”. O rapaz mal abria a boca, mas parecia estar muito tranquilo. Nao tinha nada a ver com o grupo do meu primeiro exame, estávamos todos mais ou menos tranquilos, não falávamos muito sobre o exame, o clima estava muito mais positivo.

Pedi para ser a primeira a examinar-se e o rapaz pediu para ser o segundo, assim que fomos juntos no carro. O examinador era um senhor de cabelo branco, mas parecia mais simpático que o anterior. Fazia uma manha de sol linda, havia poucos carros no Centro de Exámenes. Ou seja, tudo, tudo, tudo indicava que aquele dia seria diferente, estava tudo super positivo e tranquilo.

O examinador mandou eu retirar o carro do centro e arranquei em primeira, tinha muita gente andando na frente do carro e eu ia devagar, mas na hora que o caminho ficou livre eu meti a segunda, porque o meu professor me disse mais de um bilhão de vezes: “a primeira marcha só serve para arrancar o veículo, tem que meter a segunda em seguida”. E eu pensei que estava muito tempo em primeira, então troquei de marcha… putz, o carro deu uma “animada”, e eu estava num caminho um pouco estreito, me assustei e pisei o freio, não sei o que fiz, mas o fato é que o carro morreu. Meu coração disparou. O examinador:

__ Bem, o que está acontecendo aqui?

Já suei frio e pensei que o homem ia me mandar descer do carro. Respondi que tinha sido rápida demais e ele me respondeu tranquilo: “bem, arranque o veículo e siga”. Fiquei mais calma, arranquei e saímos.

Ele então me indicou o caminho para ir ao polígono industrial (zona onde só tem empresas) de Móstoles que tem ali ao lado, eu fiquei feliz porque tinha feito aquele circuito várias vezes e sabia que era fácil. O único problema é que tem vários stops, mas eu já sabia onde estavam todos e fui controlando o freio, prestando atenção para não pisar na linha, olhando muito… o carro estava um silêncio só e eu pensei que estava fazendo tudo bem.

Num determinado momento, chegamos em um cruzamento e havia uma furgoneta passando adiante, que entrou na rua à esquerda. O examinador me disse: “vire à esquerda como vai a furgoneta”, e eu virei, pensando que tinha feito tudo bem… foi aí que me ferrei, não fiz direito a curva e acabei invadindo o carril contrário, mas não percebi. O examinador não disse nada. Fiz um stop mais, acho, e ele me mandou fazer uma parada. Fiquei surpresa, porque havia passado coisa de cinco minutos e nem tínhamos nos metido por autopista, e ainda por cima ele me mandava parar, não estacionar… fiquei ressabiada e desconfiei que não tinha passado. Mas tudo bem, parei, e o rapaz que veio comigo tomou o assento do condutor.

Sentada ao lado do examinador, notei que ele mal olhava para o rapaz, estava entretido lendo o “Marca” e fiquei pensando se ele estava prestando atenção em alguma coisa, mas acho que esses examinadores fazem de propósito, eles fingem que estão lendo jornal para não deixar-nos nervosos. De qualquer forma, o rapaz fez um exame perfeito, fiquei até besta, e pensei com os meus botões porque os homens têm tanta facilidade para aprender a dirigir, acho que deve estar ligado ao cromossomo Y, não é possível. O exame dele também foi facinho, tudo dentro de poblado, não foi a autopista nem nada. Durou uns cinco minutos também, e o examinador mandou que ele fizesse uma parada dentro do centro de exámenes porque não havia condições para estacionar.

Nós descemos e foram as duas garotas para o carro. Eu e meu companheiro fomos tomar algo na cafeteria e ficamos conversando um pouco sobre o exame, eu disse que ele com certeza tinha passado e ele me respondeu “acho que você também passou, não vi nada demais que você tenha feito, só achei estranho como você girou naquela hora da furgoneta, mas acho que deu pra você passar.” Fiquei super animada, liguei para o Ernesto, até ajudei o rapaz a pagar a cerveja dele, porque faltavam uns trocados. Eu já sentia o carnet na minha mão, estava tão animada que nem me importou esperar as duas meninas voltarem.

Bem, elas chegaram, e foi a hora de ouvir o veredicto final. O professor conversou rapidamente com o examinador (não ficou discutindo por muito tempo, como aconteceu na outra vez), e em três minutos já estava com a gente. Primeiro ele deu a notícia para a garota que fez aula prática pela segunda vez – aquela que eu disse que pensei que iria passar – e ele falou que ela não tinha aprovado porque saltou uma faixa de pedestres. “Nao acredito que você fez aquilo, tive vontade de te matar”, ele dizia para ela. Depois ele olhou para mim e disse: “você também não passou.” Eu não acreditei. Falei: “O que?” e aí ele disse que tinha invadido o carril contrário na hora de girar à esquerda, fora que tinha deixado o carro morrer e que tinha entrado mal em todos os stops, que deveria ter colocado o carro reto e coloquei voltado à direita. “Alessandra, como você me mete a segunda na saída do centro?”, eu olhei pra ele sem entender nada. “Você sempre me disse que a primeira é só pra arrancar, por isso eu meti”. O rapaz e a outra moça, que eu pensei que não iria passar, foram os aprovados.

Voltando a auto escola, o professor conversou comigo e disse que eu deveria esperar um tempo agora para voltar a examinar-me. Eu respondi que sim, faria isso, que já tinha conversado com o meu marido, que se eu não passasse agora, esperaria o bebê nascer para voltar. Ele disse: “sim, faça isso mesmo, você passa muito nervoso e isso não é bom para o bebê… espera ele nascer, aproveita, e depois que você estiver mais acostumada à rotina com ele, então você volta, e você vai ver como será melhor. Agora você está grávida, está mais sensível, isso pode te atrapalhar”. Eu comentei: “é, acho que voltarei com a cabeça diferente, conseguirei me concentrar mais”, ele concordou e pronto.

Fui conversar com a secretária da auto escola para saber como era o procedimento agora, e os dois aprovados foram comigo para saber quando chegaria o carnet, pegar a plaquinha da L, essas coisas. A secretária pegou as fichas deles para controlar algo e notei que o rapaz que me acompanhou só fez 20 aulas… nossa, que inveja senti dele, e que raiva senti de mim.

Vim para casa chorando no ônibus, me sentia uma fracassada. Depois de 110 aulas, de ter gasto uns 3500 euros, de ter perdido tantas manhas, de ter passado tanto nervoso, eu havia jogado tudo por água abaixo. Tudo bem que eu posso me examinar novamente (pagando previamente 292 euros), tudo bem que isso acontece com muita gente, tudo bem que tem gente que precisa até mesmo de seis exames para passar… mas eu não podia aceitar que aquilo estava acontecendo comigo! Me senti uma perdedora mesmo, uma incapaz, sentia muita raiva de mim. O exame foi facílimo, o examinador era bonzinho, havia todas as condições do mundo para eu passar, e eu não passei por pura burrice. O pior é que agora vou ganhar bebê, e quero ver quando poderei voltar a auto escola… o Ernesto disse que em seis meses poderei voltar, quando estiver procurando emprego, como muitas mulheres fazem. Mas eu sei que vai ser muito difícil, não tenho mais o subsídio do governo, um bebê gasta muito… não sei, acho muito difícil voltar, acho que realmente joguei no lixo 3500 euros.

Passei o dia muito chateada, mas agora estou melhor. Minha priminha nasceu ontem (a filha da minha prima que estava grávida junto comigo), conversei com a minha prima por telefone e ela me disse: “agora só falta você”. Vi que o momento da chegada do Izan está cada vez mais perto, e resolvi pensar nele agora. Ontem montamos o berço, o carrinho… só falta um mês e meio para ele nascer. O Ernesto disse para pensar no bebê, que isso sim que importa, e eu sei que ele tem razão. Fazer o que, o jeito é deixar para lá.

Grávida e entre espanhóis

Já comentei neste post como é basicamente o atendimento a uma grávida na Espanha na Seguridad Social e também os direitos que as maes têm pelo menos em Madrid, mas agora quero falar sobre as minhas impressoes no dia-a-dia desde que engravidei.

No começo, obviamente, ninguém sabia que eu estava grávida, a barriga demorou a aparecer, e mais ainda no meu caso, que é a primeira vez que espero bebê e não sou uma mulher magra. Minha barriguinha apareceu por volta dos 4 meses e meio mais ou menos, mas a maioria das pessoas não percebia, apesar de eu usar roupas de “pré mamá”. Eu tomava o metrô todos os dias para ir a um curso que estava fazendo e ficava injuriada porque ninguém me dava lugar quando eu estava de pé. Na aula, nenhum colega comentou absolutamente nada sobre a minha barriga e isso me deixava chateada, eu estava tão feliz por exibir minha gravidez e ninguém me falava nada!

O meu marido então me disse que os desconhecidos poderiam não notar que eu estava grávida e simplesmente pensando que eu estava gorda, e não diziam nada para não ser indelicados. O mesmo poderia acontecer no metrô, como a barriga poderia ser confundida com a de uma mulher acima do peso, provavelmente não me davam assento por isso.

Quando foi setembro, e eu estava de 6 para 7 meses, aí a coisa mudou. Algumas pessoas passaram a oferecer o assento no metrô para mim. A maioria eram mulheres. Só mulher dá lugar para uma grávida. Creio que apenas um homem chegou a me oferecer o seu, o resto, todas mulheres.

Também foi nessa época que comecei a notar que as pessoas na rua me olhavam muito. Vizinhos do condomínio ou simples desconhecidos que passavam por mim na calçada, e também na maioria, mulheres. Olhavam para a minha barriga e depois para mim, pensando sabe-se lá o quê. É interessante como uma grávida chama a atenção.

Aí comecei a ficar contente e me sentindo o máximo, por isso aumentei o uso de roupas “pré mamá” para que todo mundo me notasse meeeeeesmo. Os olhares aumentaram, mas nenhum comentário veio, nenhuma pergunta… até que um dia, estávamos conversando com um casal de vizinhos que tem um cachorrinho que costuma brincar com o Pancho e o Ernesto comentou algo sobre eu estar grávida, foi aí que eles nos disseram: “ah, bem que a gente tinha visto  a sua barriguinha, mas não tínhamos certeza!” e aí perguntaram para quando era, se era menino ou menina, se já tínhamos escolhido nome etc.

Uma outra vizinha, na parada de ônibus, foi a única que me dirigiu a palavra e perguntou diretamente “para quando é o seu bebê?”, há algumas semanas atrás. E, conversando, descobri que ela é romena. Fiquei pensando se ela fosse espanhola, se teria feito a mesma pergunta.

Creio que os espanhóis têm medo de cometer uma gafe e perguntar a uma mulher se está grávida e descobrir que ela está é acima do peso, mesmo. Ou simplesmente não sentem interesse ou vontade de puxar conversa sobre isso. Nao sei. Talvez seja algo que acontece apenas com os meus vizinhos e as pessoas a minha volta. O fato é que sempre pensei que todo mundo me perguntaria sobre o bebê e não foi assim. Mesmo agora, que está óbvio que estou grávida, que tenho uma pança enorme e já tenho o andar das grávidas levando as costas para trás, ninguém fala nada. Quem sabe sobre o bebê claro que comenta, mas os demais não dizem nada, e um dia desses tomei o metrô de novo. Todos os lugares ocupados, fiquei de pé e ninguém se levantou para ceder o lugar. Duas estações depois, quando eu já ia descer, uma senhora de idade me chamou para ficar no lugar dela.Eu agradeci e disse que já ia descer.

Ah, o mesmo acontece com as filas, não pense que por eu estar grávida que tenho preferência… muito pelo contrário, eu continuo tendo de esperar a minha vez como todo mundo, seja no consulado brasileiro para retirar o meu passaporte novo, seja no supermercado na hora de comprar embutidos ao meu marido, seja no caixa na hora de pagar. Nessas horas, eu me lembro como no Brasil somos mais solidários, sempre vi gente deixando grávidas passarem adiante em filas e dando o assento no metrô e ônibus.

Li em alguns blogs que nos cursos de preparação ao parto é muito comum que as grávidas façam amigas, que se conheçam conversando sobre a gravidez e depois mantenham o contato mesmo depois do parto, combinando encontros em parquinhos com os bebês e tal. Inclusive li em um blog de uma moça que mora na Inglaterra que ela fez amizades no curso dela.  Mas isso não aconteceu comigo, as colegas do curso de preparação de parto só dizem “hola” e “adiós”, ninguém fez amizade com ninguém. Meu marido fala que depois que o Izan nascer farei amizades, porque irei leva-lo aos parquinhos, encontrarei outras mães ali, elas vão se aproximar para perguntar algo sobre ele e aí acabarei fazendo amigas. Mas às vezes eu acho que nem isso vai acontecer. É curioso como as espanholas são fechadas. O Ernesto diz que a fechada sou eu, que sou eu que não deixo ninguém se aproximar de mim. Será?

Tenho uma amiga brasileira que mora na Alemanha, ela também pensou que faria amigas nativas quando levasse seus filhos aos parquinhos dali, mas não conseguiu. E ela disse que se esforçou, que puxou conversa com algumas, mas parece que os alemães são mesmo muito fechados, só se limitavam a responder as suas perguntas, sem engrenar o papo. Vamos ver se eu terei mais sorte, não sei.

Isto é Espanha: Belen Esteban

Quando o Tiririca apareceu como candidato a deputado federal no Brasil, vários jornais e telejornais daqui mostraram a notícia, como dizendo nas entrelinhas “olha só, no Brasil irao eleger um palhaço”. A surpresa foi maior quando ele foi eleito. E aí, depois que isso aconteceu, alguns jornalistas e apresentadores de TV espanhóis tiveram uma idéia: por que nao colocar Belen Esteban como candidata nas próximas eleiçoes espanholas?

E quem é Belen Esteban? Bem, qualquer pessoa que mora na Espanha com certeza já ouviu esse nome e já está cansada de ver a cara dessa pessoa na TV e revistas. Mas para os brasileiros, ela é uma total desconhecida, entao vamos contar quem é essa personagem mediática, que se tornou mais famosa do que muitos políticos e artistas espanhóis.

Belen Esteban foi namorada de um famoso toureiro espanhol chamado Jesulin Ubrique. Eles tiveram uma filha e todo mundo pensava que um dia eles se casariam, mas nao foi o que aconteceu. Ao invés de se casar com Belen, uma jovem de família humilde, filha de um pintor e de uma faxineira, Jesulin acabou se casando com outra moça,  com mais estudos e com uma família “melhor” que a de Belen.

Belen sempre foi uma espécie de Cinderela que se ferrou, tipo uma Adriane Galisteu espanhola, mas muito mais feia e com muito menos modos do que a ex noiva de Ayrton Senna. Ela nunca caiu nas graças da família do ex, mas a sua filha foi reconhecida. Sempre foi tratada pela “prensa del corazón” como a coitadinha que ficou sozinha no final.

Há dois anos, no entanto, Belen se casou com um dono de um bar e aí começou o seu conto de fadas. Parecia que os dois se amavam muito e eram super felizes, até que começaram as primeiras crises no relacionamento. Há algumas semanas, apareceu uma moça dizendo que teve um caso com o marido de Belen. Pronto! Na Espanha inteira só se falava disso. Tornou-se assunto de todas as conversas e o tema mais importante do momento.

Dá raiva ver como alguém, que nao terminou os estudos, cujo o único feito em sua vida foi ter uma filha com um toureiro, que nao sabe sequer falar direito, está ganhando milhoes na TV. Ela é a personagem mediática mais famosa do momento, tanto quanto a Princesa de Astúrias. Aparece nas capas de todas as revistas e até os jornais falam dela. É a principal atraçao de uma rede de TV espanhola, responsável pela construçao de seu personagem. É chamada como “princesa do povo”, ganhou um concurso de dança da TV apesar de ser péssima bailarina e cobriu as campanadas da entrada de 2010 na rede de TV para a qual trabalha, tarefa muito prestegiada entre os famosos espanhóis. Sua frase mais famosa, “por mi hija mato” virou bordao nacional.

Ela diz que nao será candidata nas eleiçoes, que a política nao a interessa. Mas eu nao me surpreenderei se mudar de idéia. Uma pesquisa realizada mostrou que ela ganharia mais votos que o terceiro principal partido espanhol. Nao sei se ela ganharia como Tiririca, mas com certeza, muita gente votaria nela.

É curioso como a mídia pode construir um personagem, é um fenômeno que nao consigo compreender. Como uma mulher feia, sem educaçao, sem inteligência, que grita como uma louca pode se tornar ídolo? O que as pessoas vêem nela, uma mulher como tantas outras que conseguiu o estrelato? Mas conseguiu como, só porque teve uma filha com um toureiro? Sao coisas difíceis de compreender. De qualquer forma, hoje em dia Belen Esteban se tornou um símbolo, tanto quanto a família real, os atletas que ganharam medalhas de ouro ou os atores premiados no exterior. Quanto tempo durará seu estrelato? O tempo dirá.

 

PS: editei o texto depois que duas amigas me avisaram no Facebook que havia erros de informaçao sobre o passado de Belen Esteban. Peço desculpas pela falha!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.